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Edição 424

Exploração de Menor - Medo, um fator de mudança
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Motoristas dizem que a preocupação com a segurança e também de contrair doenças sexualmente transmissíveis tem contribuído para redução da incidência de meninas se prostituindo nas margens das rodovias

Texto Evilazio de Oliveira
Fotos Gilmar Gomes


Para os carreteiros mais experientes, a presença de meninas se prostituindo nas estradas e postos de combustíveis é um assunto recorrente, quase sempre associado a imagens das estradas do Nordeste brasileiro, onde a cena é mais comum: adolescentes se oferecendo aos motoristas de caminhão por uns trocados ou um prato de comida. Esse tipo de prostituição infanto-juvenil seria uma consequência imediata dos baixos índices econômicos da população que habita aquela região, todavia, o assédio sexual aos carreteiros é constante, com oferta para todos os gostos, como brinca um veterano estradeiro. São mocinhas ainda muito jovens, mulheres feitas, mulheres em fim de carreira e até travestis que se aventuram a bater na porta dos caminhões, nos estacionamentos. Muitas vezes, as esposas dos motoristas – que viajam junto – são surpreendidas com as “visitas” e é inevitável que ocorram perguntas do tipo “ah, se estivesse sozinho certamente tu irias abrir a porta...”
O combate à prostituição infanto-juvenil nas estradas federais, segundo o chefe da 5ª Delegacia da PRF, em Caxias do Sul/RS, inspetor Leandro Baía, 40 anos e 15 de profissão, é uma das bandeiras da corporação, com várias ações e campanhas preventivas ao longo das rodovias, em todo o País. Salienta que na região da Serra gaúcha, sob a sua responsabilidade, não foram constatados casos de prostituição de menores. Nem mesmo casos significativos de prostituição de mulheres ou travestis, que sempre merecem atenção pelo envolvimento com outras atividades ilícitas, como armas ou drogas. Uma explicação para essa baixa incidência de prostituição ao longo das estradas federais na região, e da participação de menores nessa atividade deve-se – segundo opinião do inspetor Baía – ao perfil sócio-econômico da região, de colonização italiana, mais conservadora, e de se constituir num importante pólo industrial, turístico e cultural.
Acredita que a existência de boas oportunidades de trabalho e de estudo, mesmo para as populações menos favorecidas contribua para a baixa incidência de prostituição entre jovens. Porém, reconhece que o fato existe, mas não de maneira significativa e preocupante. Mesmo assim, o trabalho dos patrulheiros rodoviários é feito com muita atenção ao longo dos 163 quilômetros sob a jurisdição da 5ª Delegacia da Polícia Rodoviária Federal, que inclui os municípios de Caxias do Sul, São Marcos e Nova Petrópolis.  São observados estabelecimentos comerciais às margens das estradas, postos de combustíveis, estacionamentos, pontos comerciais e locais onde possam ser realizados qualquer ato ilícito, acrescenta. Ele também acredita na mudança de comportamento dos carreteiros, cada vez mais preocupados com a segurança e com os riscos de doenças sexualmente transmissíveis, que somados, de certa forma inibem a prostituição direcionada especificamente aos motoristas de caminhão.
No trecho há 35 anos, e com 49 de idade, Moacir Domingo Santin, natural de Capão do Leão/RS, dirige pelas estradas do Brasil e Paraguai. É casado, tem uma filha e três netos. Acredita que o assédio de prostitutas a motoristas já foi maior em outros tempos. Admite que é difícil ver meninas se prostituindo nas rodovias ou nos pontos de paradas de caminhões. “Isso acontece mais lá para cima (Nordeste), onde a miséria é muito grande”, ressalta. Segundo ele, quando o motorista vê uma mocinha se oferecendo já sabe que é armação, que tem um marmanjo por trás pronto para praticar o assalto. E como os motoristas estão mais conscientes e preocupados com a segurança, ninguém se arrisca. “São bandidos que botam crianças na prostituição em benefício próprio, mas isso quase não existe aqui no Rio Grande do Sul”, acredita..
O cegonheiro Márcio de Oliveira, 37 anos e 19 de volante, viaja de São Bernardo do Campo/SP para o Rio Grande do Sul e afirma que é difícil ver meninas se prostituindo nas rodovias de Estados do Sul. É mais comum na Régis Bittencourt, (nome que recebe o trecho da BR-116 entre São Paulo e a divisa entre o Paraná e Santa Catarina, no limite entre Rio Negro e Mafra, ou lá para o Nordeste. Ressalta que, de um modo geral, parece que a prostituição está diminuindo nas estradas. Acredita que seja consequência do rígido controle de segurança nos postos de combustíveis, estacionamentos e nos restaurantes. Além disso, “ninguém é louco de parar o caminhão na rodovia pra pegar mulher, ainda mais criança”. Afinal, ressalta, a maioria tem mulher e filhos em casa.
Outro estradeiro a concordar que os motoristas atualmente estão mais reservados em relação ao relacionamento com prostitutas, principalmente com menores de idade, é Itacir Bertin, 60 anos e 39 de estrada. Vivendo em Caxias do Sul/RS, sua terra natal, ele viaja esporadicamente, “para não perder o hábito”, porém continua um apaixonado pela estrada e por caminhões. Lembra que o motorista não é santo, mas o comportamento do pessoal está mudando. Acredita que o aumento da violência e das doenças contribui para essa mudança, além dos caminhões mais modernos e equipados com rastreadores que denuncia qualquer parada fora do programado. Bertin concorda que é muito pequeno o número de meninas se prostituindo nas estradas e que, no Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul é muito difícil ver uma mocinha “pedindo carona ou se oferecendo aos motoristas nos postos ou restaurantes”. Até as famosas casas com a luzinha vermelha acesa à noite estão terminando. Para ele que hoje o motorista pensa melhor antes de fazer a loucura de pegar uma adolescente na estrada e, pensa, também na mulher que está em casa à sua espera. Quanto ao ciúme, ele ri, lembrando a advertência da sua “patroa”: Não vá me trazer doença pra casa...
O carreteiro Valdir Brito da Silva, 38 anos e 12 de boleia, viaja por todo o Brasil e garante que vê muita menina nova no trecho, talvez numa proporção de meio a meio em relação a mulheres adultas. Casado e pai de quatro filhos, garante que continua apaixonado pela mulher e nunca pensou em aventuras extraconjugais na estrada. Ainda mais que nos últimos anos a esposa viaja junto, o que considera muito gratificante. Conta que jamais deu uma carona por questões de segurança e também por sua índole de marido fiel. Acredita que se envolver com mulher na estrada é prejuízo e incomodação na certa. “E pior se for menina nova, porque o cara vai abusar de uma criança e se arriscar a ser assaltado”, afirma. Lembra que o Mercado de São Sebastião, no Rio de Janeiro, é uma vergonha a quantidade de meninas se prostituindo. Meninas com idades de 13 e14 anos. “Pior é que tem motorista que pega essas gurias”, lamenta.


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